História - O PÁSSARO DO POENTE



Era uma vez um jovem camponês que vivia num país onde o inverno era rigoroso.
Numa manhã onde a neve caia e caia, ele observava a paisagem da janela de sua casa. Quando os flocos pararam de cair por um instante, ele saiu caminhando e viu um movimento que lhe chamou a atenção.
Ao aproximar-se, viu que era uma cegonha e estava machucada, atingida por uma flecha.
De coração generoso, resolveu ajuda-la, retirando a flecha e fazendo um curativo em sua asa.
Os olhos da cegonha mostraram imensa gratidão. Levantou voo e foi-se distanciando até que o jovem a viu desaparecer atrás das montanhas. Dias depois, bateram em sua porta. Ao abrir, estava diante da casa uma moça de quimono branco, quase se misturando à neve e um manto vermelho protegendo o rosto.
A moça disse que estava indo para a próxima aldeia mas acabou se perdendo no caminho. Perguntou se poderia ficar ali por uma noite. O frio lá fora era imenso.
O camponês apressou-se em coloca-la para dentro. Sugeriu que ela se sentasse perto do fogareiro e ofereceu-lhe chá bem quente.
No dia seguinte, ao acordar, o jovem sentiu um cheiro gostoso de missoshiru e foi procurar de onde vinha. Logo percebeu que sua hóspede era quem estava preparando. E há muito tempo ele não tomava uma sopa de mossô tão saborosa.
Vendo a neve cair lá fora, sugeriu que a moça ficasse mais uns dias, até que o tempo melhorasse e ela pudesse seguir viagem. Ela ficou muito alegre e aceitou.
O período da neve passou, mas a moça não partiu.
Ao contrário, ficou e casou-se com o jovem. Passaram a viver muito felizes, mesmo com humildade, mas isso não tinha importância.
Uma dia, a moça teve uma ideia para ajudar o marido. Pediu que ele construísse um tear. Assim ela poderia tecer e ele venderia seu trabalho na feira.
Em poucos dias o tear estava pronto. Foi aí que a moça disse que ia começar a tecer, mas havia uma condição:
- Durante os três dias que eu estiver tecendo não quero que me veja. Está bem?
Ele estranhou mas prometeu não olhar. E aguardou.
Três dias se passaram. Finalmente o tear parou e a porta se abriu. Ela trazia nas mãos um tecido que parecia ter sido desenhado por uma deusa.
Ele levou o tecido à cidade e o vendeu rapidamente por uma grande quantia de moedas de ouro.
O jovem voltou todo contente e a moça disse que então, iria tecer mais um. Mas que novamente ele não poderia olhá-la por três dias. E assim foi.
Ao fim do terceiro dia, ao mostrar o trabalho, este era ainda mais belo que o primeiro, e o jovem o vendeu por uma quantia de moedas ainda maior.
Voltou todo entusiasmado e pediu que ela fizesse um terceiro tecido.
Ela já mostrava sinais de cansaço, mas aceitou o pedido e foi para o quarto do tear.
Mas desta vez, o marido não aguentou de curiosidade e resolveu dar uma espiada.
Aproximou-se da porta. Abriu uma fresta. E viu:  os fios pareciam ter vida. Rápidos, moviam-se, entrelaçavam-se uns aos outros, como uma dança, sem pausa.
E em frente ao tear estava... uma cegonha, que arrancava com o bico as próprias penas e ia entremeando-as aos fios, formando as delicadas estampas.
O homem fechou a porta com cuidado e continuou a esperar ouvindo o som do tear.
Logo veio o silêncio. A moça saiu do quarto. Como estava abatida... Estendeu o tecido, ainda mais lindo que os anteriores. Olhou-o nos olhos e disse:
- Sou aquela cegonha que você salvou na neve. Vim para retribuir o que fez por mim. Agora preciso ir.
- Para onde? Me perdoe, não devia ter olhado.
Ela deixou sua última obra e saiu. Lá fora o avermelhado do céu abraçava as montanhas.
- Por favor, não vá! - gritou o camponês correndo atrás da moça, que tomava sua verdadeira forma.
E os olhos dele guardaram a imagem da cegonha que foi voando.. até desaparecer no céu poente.

Esta linda história chegou a mim através de Lúcia Hiratsuka e seu livro "Histórias tecidas em seda".
Recomendo que procurem este livro e leiam o texto da autora que traz as paisagens ainda mais poéticas e delicadas, tanto quanto as suas ilustrações. É um conto tradicional do Japão que segundo Lúcia, faz uma reflexão sobre,  como nada na vida permanece igual o tempo todo.

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